terça-feira, 31 de março de 2009

Eu e o Outro em Todorov e Kipling

(texto escrito para a matéria de Introdução à Antropologia, do prof. Igor, baseado no texto Conquista da América de Tzvetan Todorov e no filme O Homem Que Queria Ser Rei, baseado no livro de Rudyard Kipling)

Ah... a velha questão do Eu versus o Outro. É realmente intrigante e que dá muito pano pra manga. Por isso mesmo vamos parar de enrolação por aqui e ir direto ao ponto, uma vez que não há muito espaço na folha e muita tinta a derramar.


O texto do Todorov e o filme baseado na obra do Kipling têm em comum um ponto: o encontro entre duas culturas diferentes no qual uma, estrangeira, recém chegada e alienígena às realidades locais, tenta dominar militarmente a outra. Não devemos necessariamente pressupor que todo encontro entre culturas diferentes se dará desta forma, apesar de a maioria de tais encontros reportados ter se sucedido assim. Talvez isso se deva ao fato de o homem ocidental dar valor apenas aos choques culturais que envolvam conflitos, uma vez que tais conflitos estão no germe de sua “vitória” sobre o resto do mundo, e a base teórica da ocidentalização do globo.


Vejamos, por exemplo, a posição de Billy – o tradutor. Ele havia chegado à Kafiristão antes de Denny e Peacher, porém ele não era um conquistador, mas um sobrevivente de uma expedição científica. Mesmo soldado, a intenção dele ali não era de guerra. Mesmo britânico (sim e ele era cidadão britânico, apesar de nativo, pois era do exército e assim tinha esse privilégio. Era ocidentalizado a partir de uma caricatura oriental do ocidente), ele não se via como capaz de ocidentalizar aqueles “selvagens”, acabando, da mesma forma como certos náufragos nas américas (como o famoso Caramuru), se integrando a eles. Foi o aparecimento dos conquistadores que transformou a tendência de mimetização da cultura na qual estava solitariamente inserido em um sentimento revigorado de superioridade e dever civilizatório, eis a razão de sua imediata adesão à campanha de conquista dos ingleses.


Naturalmente a primeira reação ao se encontrar com uma cultura alienígena é o estranhamento. A partir disso pode decorrer uma repugnância (como a de muitos padres católicos em relação a indígenas brasileiros), uma admiração pela sua obra e negação da humanidade do outro (como no caso de cortez) e mesmo uma admiração pela cultura e pelos humanos (como talvez no caso de caramuru e de outros convertidos culturais). O que define isso? O que tornaria um europeu do século XVI um entusiasta da cultura indígena enquanto outro a detestaria mortalmente? Qual o jogo de identidades presente ali?


Pode-se arriscar afirmar que uma pessoa que não está totalmente adequada a sua sociedade – um vanguardista, por assim dizer – seria mais facilmente atraído a integrar-se em uma cultura estranha que representa quase uma antítese à cultura da qual ele vem e na qual ele se sente deslocado; por outro lado um indivíduo que defende radicalmente os valores de sua sociedade – um conservador, talvez – se sentiria mais inclinado a rejeitar o diferente com todas suas forças. E que pessoas posicionadas na gradação entre esses dois extremos formariam o poço de onde brotariam os conquistadores como Cortez e Denny, pragmáticos o suficiente para conceder algum valor-utlidade àquela cultura (sem o qual não se sentiriam tentados a conquistá-la) e ao mesmo tempo negar uma condição de igualdade cultural a seus membros.


E agora mudando um pouco o foco da coisa, o que diferencia a conquista de Cortez e a de Denny, que faz com que uma seja vitoriosa e a outra desastrosa? O que um fez que o outro não?


Bem. Ambos utilizaram-se de uma série de coincidências presentes em sua chegada que lhes concedia o título de divindade para o povo nativo. Porém eles o fazem de maneira diferente. Cortez dissemina a dúvida sobre se é humano ou deus, usando essa dúvida e a hesitação que causava como jogo político para efetuar a conquista, mas sem basear sua conquista puramente no fato da divindade, uma vez que essa máscara poderia ser quebrada a qualquer momento. Assim, ele pode se declarar Vice-Rei do México sem se preocupar com a possibilidade de se ferir em público e perder o reinado ao ver ruir sua figura divina.


Denny, por sua vez, entra no personagem que criaram para ele. Sua conquista, num primeiro momento militar e política, se torna religiosa a partir do momento que ganha o apoio de Sikandergul. Ele então coloca a base de seu reinado na figura de sua divindade. Uma vez que tal máscara é quebrada, o reino desmorona sob seus pés. Nem ao exército ele pode recorrer mais, pois que sua máquina militar, a própria moral dos soldados, está fundada nesse fake divino.


É interessante como esse tema do ocidental sendo adorado como deus entre nativos primitivos é recorrente na literatura e na filmografia do século XX. Se tornou mesmo um clichê de desenhos animados.


Mas o filme ainda coloca um outro ponto, muito sutilmente, que é abordado apenas por outro livro de Ficção Científica Soft (aquela ficção mais interessado nas chamadas “ciências leves” – sociais – que nas chamadas “ciências duras” – exatas), intitulado Duna, de Frank Herbert. Nesse livro, dos anos 60, a humanidade havia colonizado a galáxia, estabelecendo um gigante império de estrutura quasi-feudal. Dentro desse império existe uma ordem secreta que tem um braço (a Missionária Protectiva) que tem o dever de ir a planetas com populações “primitivas” e imprimir nas culturas locais um conjunto de lendas e profecias a serem aproveitadas por um membro da ordem que por ventura fosse parar ali e estivesse em apuros.


Da mesma forma, no filme vemos – sutilmente colocado – Alexandre deixando um conjunto de mitos e um símbolo, possivelmente destinados a serem utilizados por um membro de sua seita que chegasse em Kafiristão nalgum futuro. Veja bem: Alexandre promete a vinda de um filho, e que esse filho teria o símbolo do esquadro, do compasso e do olho. Ou seja, o terreno estava preparado para qualquer Denny que chegasse com tal símbolo, facilitador que Cortez não teve em sua conquista. E facilitador que Denny não viu como construção humana, mas como sinal divino, contando na lista de sincronicidades que justificaram sua identificação com o papel que os nativos lhe deram.


Possivelmente essa foi a diferença crucial entre Cortez e Denny, a causa final da derrocada de um e da estrondosa vitória do outro: o modo como um e outro vestiram o papel que os nativos lhes deram, seu pragmatismo e sua ganância. Cortez era um homem que desejava apenas o ouro que pudesse arrancar. Denny estava imbuído de religiosidade cristã (lembrem de sua reação ao ver os nativos jogando polo com cabeças) que lhe fez deixar a ganância de lado e assumir o papel divino. Repare também que sua primeira reação a tal papel foi a de “isso é blasfêmia”.


Talvez uma das lições que Kipling queria passar com a história seja justamente que um dos segredos para se lidar com o outro é justamente relativizar seus próprios conceitos culturais e atingir assim um pragmatismo que lhe permite avaliar melhor o meio no qual se está inserindo.

Lênon Kramer

Um comentário:

dafne disse...

Lênon!!! o texto esta muuuuuito bom!!!!!

bjo