quarta-feira, 8 de abril de 2009

Caso o Zé Ninguém não tenha ouvido direito

PEREIRA, Iago in "Dreaming's Mystery Lane"
www.mysterylane.blogger.com.br


"(...) Vou descrever aqui o comportamento sexual praticado por grupos de Homo Sapiens que sofrem de uma gravíssima doença emocional - a normopatia. Entre estes grupos, os machos são detentores de um status incontesto - sujeito neutro de enunciação, tomador de decisões e provedor financeiro. As fêmeas costumam desfrutar de um período relativamente liberal entre o fim de suas adolescências e o começo de suas vidas adultas. Neste período, os machos buscam o intercurso com o maior número de fêmeas possível - o que, feito com sucesso, lhes rende status tanto entre machos quanto entre fêmeas. Para os machos, é importante que este intercurso não seja seguido de uma relação posterior - o que é visto como perda da liberdade, enredamento. As fêmeas perdem status às vistas do grupo quando praticam intercurso com os machos; portanto, só se dedicam a esta atividade quando se asseguram de que ele está suficientemente envolvido no ritual do flerte a ponto de poder encaminhá-lo para um casamento. Uma vez casados, o macho costuma manter uma atividade sexual com outras fêmeas - porém o faz escondendo tal fato das fêmeas do grupo, e portanto, só acumulando prestígio com os outros machos. Uma vez tendo enredado o macho no casamento, a fêmea se dedica a sua atividade usual - a preparação de alimentos e a organização ritual do espaço doméstico - e a atividade sexual se mantém graças à insistência do macho, na busca de sua satisfação. Eventualmente a prática sexual leva à produção de crias, cuja responsabilidade de criação recai sobre a fêmea."
Fragmento do jornal de campo de Paqui Adunur, positivantropólogo do sec. XXIII da Terra Alternativa 12 em visita à Belo Horizonte/Brasil em 2009.

Meio que todo mundo sabe que as coisas funcionam nessa matriz, às vezes explicitamente, às vezes tacitamente. Variantes acontecem e detalhes mudam (muitas das mulheres normopatas daqui parecem curtir um sexozinho dentro dos namoros/casamentos) mas o modelo instituído é esse aí. Ele é expropriador pras mulheres porque elas perdem (a/com a) sua autonomia sexual (o direito de desejar), e perdem sua subjetividade quando convertidas em mero objeto-corpo de satisfação dos desejos masculinos. Alguns homens, incapazes de conquistar o máximo de mulheres ou não-desejosos de tal (românticos, homosexuais, assexuados) são colocados nas posições mais baixas da hierarquia pelos membros dos grupos normopatas (por ambos homens e mulheres). Algumas mulheres, que clamam para si autonomia sexual e rejeitam a ideologia do sexo-enquanto-perda-de-algo, são vistas como não só um objeto-corpo - mas um barato, vagabundo, comum e portanto desinteressante.

Eu rejeitei esse modelo tão logo ele se configurou pra mim. Rejeitei me tornando um romântico; era uma saída segura tanto pela minha dificuldade de cortejar as mulheres quanto pelo meu asco com os grupos normopatas. Decidi encarar as mulheres enquanto sujeitos; declarando não me importar com o sexo, em perfeita contraposição ao normal, eu queria a RELAÇÃO. Apenas para me aproximar delas e ver que elas, por alguma razão que me era obscura na época, não o desejavam; isso não as excitava. Talvez, hoje penso, porque eu havia renegado a corporalidade - a minha e a delas. Ao declarar as mulheres sujeito eu proibí meu corpo de desejá-las, ou ao menos - o que era possível! - de manifestar este desejo. Eu dessexualizei minhas relações ao máximo, só para sofrer com as tensões de meu corpo e pela ausência destas tensões despertadas nelas por mim.

Uma hora, claro, a garrafa estourou. E neste momento eu descobri que tinha um corpo, e que eu precisava vivê-lo se eu quisesse alguma alegria nessa vida. Decidi aprender com os melhores jogadores, os mais pegadores, o COMO FAS de catar mulher. Eu entrei no jogo o tanto que consegui. Eu aprendi a fazer as piadas (que faziam das mulheres corpo-objeto apenas), eu tentei aprender a fugir das relações, eu ironizei (sem muita fé) as mulheres que tinham autonomia sexual. Por trás de todas as piadas eu enxergava uma crítica ao comportamento das mulheres normopatas; eu sabia que meus companheiros homens não pensavam assim, mas saber que eu estava, no final, ironizando o próprio jogo sexual normopata era tranquilizante.

Em um certo momento eu me deparei com os limites de fazer esse jogo duplo. Eu tive de encarar que ou eu partia de fato pra prática e as tratava como objetos-corpo (o que elas estavam acostumadas e o que elas esperavam de um Homem com H) ou dava outro rumo pra coisa. Daí eu larguei o jogo. Daí eu decidi que o único jeito de mudar essa porra toda é que elas e os não-normopatas fizessem uma greve geral, desmontássemos o placar de pontos (o de dentro e o de fora) e começassemos a nos tratar como, afinal, seres humanos. Portadores de corpos e subjetividades nos quais é uma delícia se atirar, dos quais é extático se embebedar, e cujos enredamentos compoem, afinal, quem nós mesmos somos.

O pegador vive a doença. A virgenzinha vive a doença. A vagabunda assumida vive a doença. Qualquer um que se lembre que se tratam de seres humanos, corporal e psiquicamente, atingiu um vislumbre da sanidade. Mas nesse mundo estranho as coisas aparecem ao contrário, e o "louco", o "doidão", o "visionário", o "radical", é aquele que olhou pras coisas e simplesmente constatou o óbvio - enquanto os normais, ou melhor, normopatas, vivem a fantasia de um jogo onde um só ganha quando o outro perde. O amor é o que acontece quando você se afunda em seres humanos de verdade (um ou muitos, à seu gosto); o resto é só fantasma.

2 comentários:

Frannie disse...

Gostei muito do texto e infelizmente essa é a realidade...somos somente corpos, objetos e para uns poucos, só essência... me parece que a sociedade não consegue conviver com a complexidade e com o todo que é ser humano.

Ana disse...

Caralho, que bom isso! Vou colocar no meu blog, ok serumano?
Abraço

(que bizarra a verificação de palavras pra postar aqui agora: franni). =O