segunda-feira, 27 de abril de 2009

Reflexões sobre a Alteridade

Lênon Kramer

(texto para trabalho de antropologia)


Para falar sobre o Outro precisamos primeiro entender o que seja o Eu, uma vez que aquele só obtém sentido quando comparado a este. O Eu, identidade primária de um ser senciente, a auto-consciência, é a negação de tudo que esteja lá fora, sendo tudo aquilo que está fora do conjunto do que não-se-é. Ou seja, o conceito de Eu só se torna possível através de um contraste com o Outro.

Assim, temos que essa divisão Eu-Outro é uma coisa arbitrária e muitas vezes irrelevante para o Outro-Lá-Fora, apesar de ser de suma importância para o Eu-Aqui-Dentro, que necessita disso para se afirmar enquanto consciência existente e atuante. “Somente do meu ponto de vista, no qual todos estão e só eu estou aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim” [1].

Talvez esta seja a origem da atitude que Lévi-Strauss [2] considera como a mais antiga e primária ao se encontrar uma cultura diferente: a de repúdio. Sendo o Eu em princípio uma negação do Outro, a postura psicológica básica é a de negação: eu não sou como eles, e se os costumes deles não são iguais aos meus, devem ser bárbaros e selvagens, uma vez que eu sou um Homem.

Ainda Lévi-Strauss [3] chama a atenção para o fato de que a maioria das culturas se autodesignam com um epíteto que pode ser traduzido por “Os Homens”, enquanto que para as tribos vizinhas reservam epítetos como “maus”, “malvados”, “macacos da terra”, “ovos de piolhos” ou até mesmo “fantasmas” ou “aparições”.

Isso talvez seja uma necessidade do Eu de se afirmar, de se identificar em contraste ao Outro, que, não podendo ser igual (o que desidentificaria o Eu), deve ser necessariamente inferior.

E assim, através desse jogo de identificações, epítetos e diferenciações que a humanidade foi tomando forma. E essa forma definitivamente não é homogênea, como suporiam alguns teóricos, mas completamente heterogênea e diversificada.

Há aí um jogo duplo entre o Eu e o Outro. Pois ao mesmo tempo que há uma tendência a grupos próximos fisicamente se afastarem culturalmente (buscando assim uma identificação pelo contraste), há também uma tendência oposta de se aproximarem culturalmente (buscando assim a interação, ou talvez mesmo como fruto desta). Esse jogo se forma em contrastes e reflexos, trocas e cópias.

Assim a formação de pensamento nas mais diversas culturas não é igual, e nem mesmo semelhante. Cada uma tem seu próprio ethos, que não pode ser desconsiderado ao se fazer uma análise etnográfica.

Não se pode pressupor, como fez Obeyesekere – segundo Sahlins [4] –, que todos os humanos possuem uma mesma racionalidade, uma mesma propensão a seguir a lógica aristotélica-cartesiana ocidental. Cada população específica encara a realidade de sua forma específica, seu próprio túnel-realidade.

Cada cultura é única em sua especificidade. Culturas podem ser misturadas, criadas, modificadas, destruídas... mas serão sempre diferentes entre si e cada uma carregará seus próprios pressupostos e sua própria lógica.

Encontros entre culturas diferentes costumam ser sangrentos, por conta desse instinto de negação. Geralmente ou as duas culturas se misturam ou uma se sobrepõe à outra. Mas nunca saem incólumes.

O ocidente ganhou preponderância cultural nos últimos dois séculos por conta de seu desenvolvimento tecnológico, fruto de sua obsessão por “aumentar continuamente a energia disponível per capita[5]. Assim os ocidentais ganharam a possibilidade de levar (forçar) sua cultura a todos os quatro cantos da terra, sem grande chance de resistência dos demais povos, que até então estavam preocupados com outros tipos de coisas, como desenvolver suas relações de etiqueta, ou seu conhecimento do corpo e da mente humanos, ou qualquer outra coisa.

A aparente vitória do ocidente sobre o resto do mundo se deve menos a sua “superioridade” efetiva do que seu foco de interesse comparado com o de outros povos.

Porém essa globalização teve efeitos colaterais além da ocidentalização[6]: aumentou a chance de as demais culturas se moverem pelo globo. Hoje um dos principais elementos culturais do ocidente, o rock ‘n’ roll não é de origem européia, mas sim africana, assim como o blues, o jazz, apenas para citar alguns dos mais internacionalmente populares.

Hoje com a internet nós temos a possibilidade inclusive de constituição de culturas não-localizadas espacialmente. As chamadas sub-culturas ou tribos urbanas surgem, crescem e desaparecem a cada instante, carregando consigo ethos, morais, costumes e crenças próprias e específicas. Isto talvez seja uma resposta ao problema colocado por Lévi-Strauss[7], afastamentos diferenciais no jogo cultural que barrem a homogeneidade e evitem um enfraquecimento do progresso.



[1] TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América, a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 3

[2] LÉVI-STRAUSS, Claude. “Raça e História”. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1976. p. 333

[3] ibid. p. 334

[4] SAHLINS, Marshall. “Introdução”. In Sahlins, Marshall. Como pensam os nativos: Sobre o Capitão Cook, por exemplo. São Paulo: Edusp, 2001

[5] LÉVI-STRAUSS, Claude. “Raça e História”. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1976. p. 351

[6] há inclusive controvérsias em relação à realidade da tal ocidentalização e qual seu verdadeiro alcance. Movimentos de relocalização cultural existem por todos os lugares.

[7] LÉVI-STRAUSS, Claude. “Raça e História”. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1976. p. 363

Um comentário:

Quí disse...

va arrumar uma profissao de verdade em vez de imitar teu pai imbecil
e vc nao eh escritor, caia na realidade. tchau.